O lado B da tecnologia

Lado B é uma expressão que surgiu com os antigos discos de vinil, onde os artistas aproveitavam a pausa que havia para virar o disco para expor um outro lado do seu trabalho que não era aquele com maior potencial de vendas, mas o lado mais experimental e alternativo. Esse outro lado podia não ter interesses comerciais e, por isso mesmo, era mais autêntico e representava melhor a essência do artista.

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Do analógico para o digital, não existem mais lados, é mais uma questão sobre conter ou não conter informação, além de ser uma informação que pode ser maleável, diferentemente do conteúdo analógico ao qual não podemos manipular. Mas, a grosso modo, nem porque deixamos de utilizar as mídias analógicas como principal meio de propagação, que o lado B se perdeu, aliás nem o velho vinil se perdeu, ele está mais vivo do que anos atrás. Mas, e se o chip tivesse um lado B? Qual lado do universo digital você estaria escutando? Será que você está encarando o universo digital como se fosse um disco de vinil, com dígitos imutáveis, ou você está escutando o lado B do universo digital e acessando o seu lado mais maleável?

Arte

Nossa cultura é inteiramente permeada por meios digitais e, no entanto, sem um lado B, sem um comparativo, não há crítica. Vílem Flusser, em seu livro A filosofia da caixa preta, usa como metáfora a câmera fotográfica para apontar a forma como usufruímos dos meios tecnológicos. Sabemos apertar um botão para tirar uma foto, no entanto, essa automatização nos afasta de todo o processo de como o sistema funciona.

A arte lida com os meios de seu tempo, e os artistas midiáticos de hoje representam o que há de mais avançado na arte. A atual tecnologia não foi inicialmente desenvolvida para a atividade artística, porém são estes os responsáveis pelo desenvolvimento que vai além da dimensão técnica, desprogramando suas funções e deixando a nú sua lógica. E isso faz com que muitos artistas estejam bem na frente de algumas empresas de tecnologia. A turma que pensa em desenvolvimento tecnológico pensa em padrões e tudo que possa agilizar a vida, claro, mas com isso acabam se arriscando muito pouco, e é aí que a arte entra, sujeita a errar e a ver coisas novas.

Giselle Beiguelman, midiartista, curadora e pesquisadora, criou um aplicativo para dispositivos móveis, I Lv Yr GIF, que permite composições visuais interativas através de antigos GIFs animados. Com isso, temos que o desenvolvimento de aplicativos não se restringe apenas aos engenheiros da computação, sendo uma área das mais cobiçadas pelos artistas contemporâneos. Além do mais, o I Lv Yr GIF é um aplicativo é open source, o que demonstra que nem toda obra de arte precisa custar uma fortuna e pode, sim, ser gratuita – no universo digital a gratuidade é mais uma condição para a sua existência do que um princípio, pois dentro de mídias de massa dependemos de sua popularização para que o aplicativo permaneça vivo.

O Arduino, por exemplo, hardware livre que revolucionou a cena digital, é open source, ou seja, toda informação sobre seu desenvolvimento está disponível e você pode construir o seu próprio e ainda por cima comercializá-lo. Nem por isso seus desenvolvedores deixam de faturar, pois muita gente acaba comprando o Arduino produzido pelos próprios desenvolvedores. Assim, eles faturam com as vendas e também se beneficiam com a expansão do número de usuários. Veja aqui alguns projetos bacanas que foram feitos com Arduíno no ano passado.

A grande diferença entre a criação e a inovação é que a criação envolve a ideia, e a inovação envolve a aplicação de uma ideia. Até então, o papel do artista era o da criação e, após a celebração de uma obra de arte, criam-se inúmeras formas de utilização da ideia ali criada. Hoje o que vemos é o oposto: engenheiros e afins criando tecnologias, as quais artistas se ocupam de sua aplicação. Se a arte se contamina pela tecnologia, por que não deixar a tecnologia se permear pela arte?

Cadu Lacerda, artista multimeios do Rio de Janeiro, criou uma série de pinturas que se baseiam nas imagens obtidas por um algoritmo que ele mesmo criou utilizando uma ferramenta de código aberto que facilita o uso de determinadas linguagens de programação para designers e artistas, tornando suas criações interativas e generativas, a Processing. Depois do seu surgimento, a arte e o design nunca mais foram os mesmos.

Para a criação da série intitulada “Parasimétrica – Algoritmo das Cores”, Cadu utilizou o software para designar uma cor para cada letra, substituiu as letras de um poema por pixels coloridos e os transferiu para a tela, originando a obra. Pode parecer estranho uma tela sem nenhum tipo de interatividade participando de inúmeras exposições de Arte Digital, mas a função básica que ele usou com este software para pintar o quadro exemplifica com a mais pura clareza o que o universo digital está constantemente fazendo: traduzir. Uma quantidade enorme de zeros e uns pode ser traduzida como letras que formam os textos que você lê no seu computador. Em obras interativas, a posição cartesiana do seu mouse é traduzida como o ponto de origem para algum outro acontecimento.

Muitas vezes é na simplicidade que se encontra o complexo. O trabalho de Cadu Lacerda acabou evoluindo para um aplicativo para iPhone – você aponta a câmera para uma imagem e o processo reverso se dá, os números obtidos pelas cores em RGB são substituídos por letras, e assim podemos ler o texto “existente” em cada imagem.

Futuro no passado

Muitas vezes a inovação vem de peças já ultrapassadas, e é nessa releitura que surgem as ideias mais mirabolantes. O midiartista Mateus Knelsen desenvolveu, em 2012, um workshop ao estilo DIY, faça você mesmo, na Freguesia do Ó em São Paulo, onde os inscritos eram convidados a construir seu próprio carinho de rolimã e acoplar pequenos transmissores de sinal de rádio e TV; ao descerem a ladeira, eles transmitiam estes sinais às TVs e rádios locais. Confira em http://labmovel.net/.

A releitura do passado só é possível devido ao grande avanço tecnológico atual, que nos permite, por exemplo, transformar uma fita K7 em um minicomputador, devido a uma tecnologia que é cada vez mais potente, porém em menores escalas. O Raspberry Pi, computador que surgiu em 2012 do tamanho de um cartão de crédito, é o auge da tecnologia hoje e quem mais esta aproveitando disto é o lado B. Vale a pena ler este artigo que mostra 10 criações com Raspberry Pi e como um mini-PC pode ser incrível.

Muita coisa nova pode surgir do passado, mas nem tudo que vemos de inovador é tão novo assim. Os filmes 3D estereoscópicos que assistimos com os óculos ganharam enorme credibilidade com o filme Avatar, de James Cameron, mas eles existem desde 1915; só que agora, com a tecnologia digital, ganharam força novamente. Outra grande cartada do passado são as holografias, que estão fazendo sucesso em shows onde antigos músicos, digamos já “extintos”, voltam de suas tumbas através de imagens holográficas que interagem com a banda real. Esse é um efeito que era muito usado por antigos mágicos e se chamava phantasmagoria, e não eram holografias, mas um jogo de espelhos muito bem feito.

Lixo eletrônico

Por isso não jogue fora o passado, aliás, não jogue nada fora! O lixo eletrônico pode ser valiosíssimo nas mãos de pessoas como as do Metareciclagem, que começaram recebendo computadores usados para serem concertados e doados em projetos sociais. O grupo amadureceu e hoje se envolve em diversas ações de desconstrução para reconstrução da tecnologia como proposta de transformação social. Na página inicial do site você é recebido com todo o bom humor que jamais se esperaria de um grupo que se envolve com desenvolvimento tecnológico e políticas sociais.

O lado mais humano dentro dos hackerspaces

Mais do que por produtos, o lado B é formado por pessoas. Parece que a galera descolada esta invadindo o espaço dos nerds. Radamés Ajna lidera já há alguns anos o hackerspace do SESC Pompéia, em São Paulo. Muito jovem para tanto conhecimento, ele não tem medo de compartilhar livremente tudo que sabe para quem estiver disposto a aprender. Em uma época onde a informação vale muito, os hackerspaces funcionam ao oposto disto.

Um hackerspace, como o nome já diz, é um local onde hackers, curiosos que gostam de fuçar coisas, se encontram fisicamente. É um movimento internacional que vem crescendo todos os dias, com grupos e mais grupos surgindo, com o intuito de compartilhar seus conhecimentos construindo uma comunidade de gente esperta capazes de superar qualquer desafio.

Esses grupos existem, mais do que pelo encontro físico, por uma vasta lista de comunidades que compartilham na rede tutoriais e códigos sobre tudo que diz respeito a este universo, envoltos, é claro, sobre a bandeira do software livre. São inúmeros sites que podem te ensinar a fazer qualquer tipo de coisa, aparentemente de uma sofisticada tecnologia, mas que pode ser construída com objetos que estão à nossa volta.

Ao compreendermos como escrever nossos próprios softwares ou construir nossas próprias máquinas, compreendemos mais o mundo à nossa volta e podemos nos expressar melhor de uma maneira que rompe com os limites que as grandes instituições e corporações estão nos impondo.

A Casa de Cultura Digital, em São Paulo, é quase uma vila de hackerspaces – como a sede do Garoa Hacker Club – engajadíssimos e em um constante clima de festa. Um dos projetos mais interessantes que surgiu lá é o Ônibus Hacker, isso mesmo, um ônibus todo hackeado e cheio de hackers viajando pelo Brasil compartilhando conhecimento. O projeto foi financiado através de crowdfunding, ou seja, por pessoas físicas interessadas na iniciativa e engajado pelo site Catarse.

Outro projeto surgiu quando decidiram comprar uma Makerbot, impressora que imprime peças em 3D, para construir sua própria máquina de pinball e perceberam que a impressora poderia ser bem melhor. Daí fizeram a impressora imprimir outra impressora 3D, ainda mais avançada.

A Casa de Cultura Digital ainda abriga o MemeLab, onde trabalham o VJ Pixel e a produtora Andressa Viana, que têm a pilha de produzir tanto um evento como um software – a questão é realizar. Um dia decidiram que queriam criar seu próprio software de Realidade Aumentada e reuniram quem mais estava a fim de se envolver, fuçaram um pouco e criaram o Jandig, software que já participou de vários festivais de cultura digital, mostrando o que um grupo de pessoas ousadas é capaz.

Mas o desenvolvimento de gambiarras, aquele jeitinho brasileiro de improvisar soluções, não se restringe ao eixo Rio-São Paulo. O grupo Gambiologia, de Belo Horizonte, marca presença na cena com sua cultura pop tupiniquim. E em festivais e encontros de cultura digital podemos ouvir toda uma série de sotaques baianos e pernambucanos discutindo códigos e calando muito carioca e paulista.

Os que frequentam o universo do desenvolvimento tecnológico formam uma cena cada vez mais variada e animada. Entre eles está Marcelo Castilha, músico da banda Improvisado. Ele vira o disco da cena eletrônica noturna e toca jazz em uma das festas mais descoladas de São Paulo; durante o dia ele revira o disco novamente e se introduz na cena hacker: já conduziu o hackerspace do SESC Belenzinho e já foi visto usando tupperwares como distorcedores de som, criando e modificando músicas com um resultado harmônico. Mais um pouco e vamos ter o lado C da tecnologia!

Conclusão

Podemos virar o disco, ou unir os lados. Segundo Arlindo Machado, o segredo é a convergência – quanto mais individualizamos os campos de atividade, menos produtivos somos, enquanto a hibridização gera possibilidades e melhores soluções. Compartilhar é a chave do negócio e, sem as comunidades que disponibilizam livremente a informação na rede, nada disso seria possível.

Olhar para o outro lado é estar livre de padrões, criar com as próprias mãos e ver que é possível alcançar seus objetivos por diferentes caminhos. Sem medo de errar, somos capazes de improvisar e de onde menos esperamos é que surgem as ideias mais bacanas. O lado B é que aqui a gente faz samba, e esse é o nosso ritmo, uma incorporação de diversos gêneros com um resultado singular.

Aprenda mais, faça mais, compartilhe mais:

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